📱 Adolescentes Offline? O impacto da interdição de telemóveis e redes sociais na saúde mental
- Cátia Castro

- 23 de out. de 2025
- 3 min de leitura

Tive a oportunidade de dinamizar o webinar “Adolescentes Offline? O Impacto da Interdição de Telemóveis e Redes Sociais na Saúde Mental”, organizado pelo Instituto CRIAP. Um momento de reflexão e partilha sobre um tema profundamente atual: a proibição do uso de telemóveis nas escolas públicas e privadas portuguesas do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico (dos 6 aos 12 anos).
A audiência mostrou-se atenta, participativa e trouxe questões pertinentes que enriqueceram o debate — refletindo uma preocupação crescente de pais, professores e profissionais de saúde mental com o lugar que a tecnologia ocupa no desenvolvimento das crianças e adolescentes.
Políticas internacionais
Analisámos políticas educativas de vários países — da França ao Reino Unido, passando pela Austrália — que implementaram diferentes modelos de restrição ao uso de telemóveis nas escolas.
Os resultados variam: alguns estudos apontam para ganhos em atenção, socialização e desempenho académico, enquanto outros revelam efeitos neutros ou mistos, sobretudo quando o uso de telemóveis ocorre fora do contexto escolar.
Evidência científica
A literatura científica sugere que a presença constante do telemóvel pode interferir com a atenção, a autorregulação e a qualidade das interações sociais.No entanto, a tecnologia em si não é o inimigo: o impacto depende do tipo de uso, da idade, da supervisão e da intenção educativa.
É por isso que as políticas escolares devem ser acompanhadas de estratégias pedagógicas e de literacia digital, que ajudem os jovens a compreender e a gerir o seu uso tecnológico.
A voz dos jovens
Um dos temas mais relevantes discutidos foi o equilíbrio entre proteção e autonomia.Os adolescentes apontam benefícios no uso do telemóvel — segurança, comunicação com os pais, organização escolar e sentimento de pertença — mas também reconhecem as desvantagens: distrações constantes, comparações sociais, pressão estética e risco de ciberbullying.
Saúde mental e regulação emocional
O telemóvel pode funcionar como uma estratégia de regulação emocional — um recurso para lidar com o tédio, o stress ou a solidão. Contudo, quando se torna o único meio de regulação, o risco de dependência aumenta.
Ensinar as crianças e adolescentes a diversificar estratégias de coping — através da relação, da criatividade, do desporto ou da presença corporal — é uma das tarefas mais importantes da educação emocional no século XXI.
👨👩👧 Estratégias práticas e papel das famílias
Abordámos também medidas concretas que podem ser adotadas em casa e na escola:
Regras claras e coerentes sobre horários e espaços sem ecrãs;
Zonas livres de telemóvel e momentos de convivência real;
Supervisão proporcional à idade, promovendo autonomia acompanhada;
Modelagem parental — o exemplo dos adultos continua a ser o maior fator de aprendizagem.
Implementação nas escolas
As políticas escolares devem ser claras, consistentes e justas, contemplando exceções devidamente justificadas (condições de saúde ou necessidades educativas específicas). A proibição pode ser um ponto de partida, mas não deve ser o único caminho.
Deve vir acompanhada de alternativas ricas durante os intervalos, espaços de convivência, atividade física e expressão criativa.
Para além da proibição
Proibir não chega. É essencial educar para a literacia digital e formar o cidadão digital — alguém que compreende o funcionamento dos algoritmos, os riscos da desinformação e o impacto emocional do uso constante das redes sociais. O uso de smartphones não é equivalente ao uso de tecnologia educativa.
A diferença está na intenção, na mediação e na consciência.
Um equilíbrio possível
O equilíbrio é possível quando escola, família, comunidade e decisores políticos caminham na mesma direção: proteger sem isolar, educar sem proibir em excesso, orientar sem controlar.
Crescer num mundo digital é inevitável — mas fazer desse crescimento um processo saudável e humano é uma escolha coletiva.



